Espaço da Leitora: Os Eternos Gargalos de Quem Produz Alimentos no Campo

Inauguramos nesta segunda-feira o Espaço da Leitora com um artigo produzido e enviado por Fátima Marchezan, que, além de bióloga, mestre em Agronegócios  e doutoranda em Manejo e Conservação do Solo e da Água é também presidente da Associação dos Arrozeiros de Alegrete/RS. Confira!

OS ETERNOS GARGALOS DE QUEM PRODUZ ALIMENTOS NO CAMPO

O maior esteio da economia brasileira – a agricultura, ainda sofre com os mesmos problemas de décadas atrás. Entra governo, sai governo e nada, ou pouco muda, na política agrícola do nosso país. Alguns desses problemas são gerados dentro das porteiras, mas os que realmente estrangulam os produtores são os gargalos que ficam para fora de suas porteiras, pois sobre esses eles têm pouca ou nenhuma gerência e dependem da força das suas representações de classe, sejam instituições, gestores ou políticos eleitos com a bandeira do agro. O cenário nacional onde essas questões são debatidas envolve incompetência, muito jogo de interesses, falta de vontade política e a total ausência de planejamento estratégico por parte dos nossos gestores estaduais e federais.

O atual cenário econômico do país impacta fortemente o setor onde se tem uma legislação tributária complexa e confusa, com impostos e tributações abusivas, que podem pesar muito nos preços de transações de produtos como a soja e o arroz. Incoerentemente, isso faz com que seja mais barato um grão entrar no país atravessando fronteiras e mesmo oceanos do que passar pelas divisas entre estados. Cada estado (e o DF) tem a sua própria legislação tributária, uma verdadeira Torre de Babel, onde a assimetria nas alíquotas de ICMS entre os estados pode chegar a 12%!

Some-se a isso um modal rodoviário dominante e em péssimas condições e o custo elevado do transporte, do combustível e da energia elétrica. Para o arroz irrigado, o fornecimento de energia de qualidade e a redução das tarifas são fundamentais para manter a produção e a competitividade, já que um atraso na entrada da água pode reduzir significativamente a produtividade de uma lavoura e o manejo do solo e a colheita consumem volumes elevados de combustível. Com isso, o orçamento dos produtores está cada vez mais difícil de ser ajustado e a energia elétrica e óleo diesel juntos somam em torno de 20% dos custos de produção.

Outros estrangulamentos pelos quais passa o setor agrícola e também pecuarista são os juros elevados cobrados pelos bancos e os indecentes “penduricalhos” como seguros de vida, de automóveis e outros que são enfiados goela abaixo para os produtores no momento da tomada de crédito ou da renegociação de dívidas e que fazem dobrar os juros que são pagos pelo custeio.  

O aumento dos custos de produção para a safra 2017/2018 para a produção de grãos, a incerteza de retorno financeiro e a atual instabilidade econômica em todo o Brasil exige um planejamento mais detalhado e criterioso por parte dos produtores e que deve passar pela racionalização de insumos e um repensar sobre o custo de oportunidade do seu investimento. Até quando valerá a pena permanecer no campo? Para quem permanece bravamente, vale a pena repensar se toda a área deve ser semeada ou se devem priorizar as melhores áreas.

No que se refere a nossa legislação trabalhista (em particular os elevados encargos sociais) a mesma é onerosa e geradora de informalidade, impactando negativamente tanto empregador quanto empregado. Contribui também para manter uma prática de baixos salários no campo o que leva cada vez mais à falta de mão de obra nesse setor.

Obviamente que no que se refere à mão de obra temos algumas questões que também pesam na falta desse importante e, por vezes, insubstituível recurso, como o fato de que algumas propriedades não oferecem o mínimo de qualidade de trabalho para os funcionários e o apelo da cidade em oferecer uma oportunidade de trabalho com finais de semana e feriados livres e horários fixos de jornada. No campo, as regras são ditadas pelo clima e pelas janelas adequadas de semear, irrigar e colher. Por outro lado, já ouvi também produtor reclamando da falta de cuidado dos operadores de máquinas e mesmo má fé para ficar sem trabalhar. Mas será que os produtores estão procurando qualificar seus funcionários para que deixem de ser apenas “serviços gerais” ou ainda julgam que um dia de curso para a qualificação técnica é perda de serviço na lavoura?

Pois é… temos que analisar os dois lados dessa relação e esse talvez seja o maior gargalo que o setor enfrente atualmente, pois algumas funções como a de aguador na lavoura de arroz irrigado por alagamento ainda não pode ser substituída e a reclamação é geral de que não se acha mais gente para trabalhar no campo.

A sociedade e nossos governantes precisam tomar consciência de que um país sem uma base agrícola forte e desenvolvida fica à mercê de outros que o alimentem. Alimento e energia sempre serão moedas de vida ou morte, fatores de subdesenvolvimento ou crescimento econômico. De nada adianta o produtor reduzir os gastos que estão ao seu alcance, fazer uso de tecnologia de ponta e ser eficiente na gerência do seu negócio se não tiver competitividade devido ao custo Brasil.

Parece ilógico falar em gargalos e dificuldades para um setor que parece crescer ano a ano, mas o que ocorre é que o produtor rural tem feito das tripas coração para controlar seus custos internos, apostando em tecnologias para aumentar a sua produtividade e tentando não ficar no vermelho. Se o produtor produz mais, o governo tem mais desse produto no mercado e a um preço menor para comprar, vender e garantir alimento barato na mesa do consumidor.

Na contra mão do bom senso, surgem cada vez mais dificuldades para que o homem do campo continue fortalecendo a nossa balança comercial. Graças ao atual desgoverno desse país, a safra 2017/2018 terá um custo exorbitante, com provável redução de área e possível redução da produção. Além da incerteza climática inerente à atividade, o produtor terá que gerenciar os altos custos com a energia elétrica, combustíveis como óleo diesel, adubos e agroquímicos. E depois o produtor rural ainda é mal visto por muitos que desconhecem que a contribuição do governo é mínima para que se produza o alimento que deveria chegar em quantidade e qualidade à mesa da nossa população.  Aliás, o governo quando mais ajuda o produtor rural, é quando não atrapalha!

E, por último, alguns números fornecidos pela FARSUL: o custo operacional das nossas lavouras é 20% maior que o dos Estados Unidos, os custos com irrigação e diesel são 30% maiores e a mão-de-obra, pasmem, é 130% mais cara que aquela paga pelos produtores norte-americanos. Como produzir e manter a gente do campo desse jeito? Como evitar o crescente êxodo rural?“.

Para falar com a autora deste artigo contate: mfmarchezan@gmail.com

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